Voltar para o topo

Pensamento do dia:

Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram.

Graham Bell

O que é economia solidária

Arquivado em Sociedade | 3.223 visitas | Tags:
[indicativo]

Se diz que o peixe não sabe que vive na água, porque nunca conheceu outro ambiente. Da mesma forma somos nós, quando se trata da convivência com sistemas que existem desde muito tempo.Nós nascemos em uma cultura que vive em função do capitalismo e por isso nossos valores são diretamente influenciados por esse sistema, de tal maneira que se torna muito difícil pensar de forma alternativa. Essa mudança de paradigma, no entanto, é necessária, principalmente para enxergarmos o nosso próprio condicionamento e as limitações que o capitalismo nos impõe.

Características do capitalismo

O capitalismo se fundamenta em uma economia de mercado competitiva, onde pessoas, empresas, produtos e serviços disputam entre si pelo mercado consumidor. Seguindo a mesma lógica capitalista, tudo é objeto de disputa, desde a vaga na universidade até a posição de destaque em um grupo social e nesta competição vence o que dispõe de mais recursos ou ferramentas disponíveis: inteligência, habilidade, criatividade, status, indicações, fama ou bens materiais.

Nesta disputa, o sucesso de alguém implica quase sempre no fracasso do outro. Então impera a lei do mais forte, o qual compete muitas vezes com outros que não dispõem de condições para sequer começar a disputa. Competição e desigualdade são o eixo do capitalismo, pois não só o determinam como o alimentam.

Mas a competitividade é sempre ruim? Não, ela tem duas faces. Se por um lado ela gera um abismo de desigualdade, por outro lado proporciona ao consumidor a opção de escolher os melhores produtos e preços. Quanto mais competitivo um mercado, mais se agrega valor aos seus produtos para que se tornem atrativos.

Paul Singer, no entanto, faz uma observação pertinente sobre esse processo. Ele diz que a maior desvantagem do capitalismo está no impacto social e econômico gerado nos perdedores. Em suas palavras: “A sina dos perdedores fica na penumbra.” Por exemplo, o que acontece com os empresários e empregados das empresas que quebram? Ou os pretendentes que não conseguem a vaga de emprego ou os que reprovam no vestibular? Teoricamente, eles continuarão competindo, tentando até conseguir. Mas a realidade é muita distinta. Na economia capitalista, os ganhadores acumulam vantagens e os perdedores acumulam desvantagens para as próximas disputas.

Assim, o empresário falido não consegue crédito para recomeçar; aqueles que não conseguem uma vaga de emprego vão ficando cada vez mais obsoletos com o passar do tempo, ou seja, saem do mercado; isso sem considerar a pressão psicológica sofrida pelos “perdedores”, que vão pouco a pouco assumindo para si este rótulo e condicionando suas decisões futuras aos limites do que sua auto-estima permite.

O capitalismo, portanto, produz desigualdade crescente, polarizando o mundo entre vencedores e perdedores e essa polarização tende a ser herdada, já que as gerações seguintes entram nessa disputa com grande desigualdade de condições.

 Existe uma outra alternativa?

Sim, existe e é uma alternativa viável, pois pode conviver pacificamente com o capitalismo, realizando uma transição lenta, que promove uma mudança de paradigmas, ampliando seu espaço até por fim, quem sabe, substituir o modelo vigente. Trata-se da chamada economia solidária.

Apesar de entendermos que a competição é absolutamente natural, pois é a mola da evolução das espécies, ao mesmo tempo devemos perceber que o ser humano só se tornou o que é graças à sua capacidade de organizar-se socialmente e aprender a cooperar com seus semelhantes, ou seja, enquanto a lógica da evolução da natureza é a competição (princípio do capitalismo), a lógica da evolução humana é a cooperação, que se estabelece principalmente pela associação entre iguais, ao contrário do capitalismo, em que os contratos são realizados entre desiguais.

Mas o que é economia solidária? Segundo a Wikipedia, “é uma forma de produção, consumo e distribuição de riqueza (economia) centrada na valorização do ser humano e não do capital. Tem base associativista e cooperativista, e é voltada para a produção, consumo e comercialização de bens e serviços de modo autogerido (…)”.

O foco da economia solidária é a geração de qualidade de vida através do trabalho cooperado, entre iguais, sem exploradores (que detém os meios de produção) e explorados (que vendem sua força de trabalho, pois é o único que têm). Por exemplo, em cooperativas de produção, os sócios têm a mesma parcela de capital e, por consequência, o mesmo poder de voto. Se a cooperativa precisa de diretores, eles são eleitos e responde perante todos. Ninguém manda em ninguém. E não há competição entre os sócios pois se a empresa ganha, todos ganham; se a empresa perde, o prejuízo é de todos.

As cooperativas podem conviver e prosperar em um mundo dominado pelo capitalismo, proporcionando a redução das desigualdades sociais e o acesso ao mercado de trabalho àqueles que são excluídos deste por inúmeras razões, como idade, etnia ou experiência profissional. É um meio de encontrar dignidade em um mundo separado por realidades sociais tão distintas, realidades estas que afetam os dois lados, não apenas o lado dos desprovidos, mas também aos que desfrutam do sistema capitalista, que sofrem através do medo da violência e da falta de segurança, consequências naturais desse mesmo sistema.

Como funciona uma empresa regida pela economia solidária?

Teoricamente, mesmo que este modelo econômico consiga finalmente destronar o modelo atual, ele ainda geraria desigualdades, ainda que bem menores, pois haveria desigualdade entre cooperativas, já que umas prosperariam mais do que outras. Ou seja, existiria ainda a necessidade da intervenção do estado, para amortecer essas diferenças, criando mecanismos como impostos progressivos e incentivos e investimentos para os que produzem menos. Novamente encontramos uma diferença entre a economia solidária e o capitalismo, pois neste último é comum encontrarmos os incentivos e linhas de crédito especiais justamente para aqueles que não precisam de nenhuma ajuda estatal.

Mas, pensando de forma mais realista, sabemos que este modelo econômico precisa inserir-se no que hoje existe, que é o capitalismo. Como funcionaria então? Novamente recorremos a Paul Singer, que explica que na empresa solidária os sócios não recebem salário mas sim retirada, que varia conforme a receita obtida e que é decidida em assembléia, se as retiradas devem ser iguais ou diferenciadas. Adotar uma retirada desigual pode parecer uma contradição mas isso é devido à necessidade de reter alguns profissionais mais qualificados na cooperativa (geralmente as diferenças de retiradas estão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual), pois muitas vezes as ofertas do mercado capitalista somado à pressão dos familiares fazem alguns profissionais de grande talento se afastar das cooperativas; e caso a sua permanência for assinalada pelos demais cooperados como fonte de ganhos, isso justifica a desigualdade. Muitas empresas que adotam esse sistema fixam limites entre a maior e a menor retirada.

E sobre o ingresso de novos cooperados em uma cooperativa que já está em funcionamento? É comum os cooperados mais antigos se ressentirem de compartilhar os benefícios acumulados com os recém chegados. Por isso é regra existir um estágio probatório para ingresso de novos sócios, que vai de 6 meses a um ano. Nesse período eles recebem salários e seus créditos trabalhistas servem para integralizar a cota do capital da coorperativa.

A autogestão

Uma das principais características da economia solidária, em termos práticos, está na sua forma de gestão. Enquanto as empresas capitalistas adotam um modelo de gestão hierárquica, as cooperativas adotam a autogestão.

Gestão hierárquica (heterogestão):

  • As informações e consultas fluem de baixo para cima e as ordens e instruções fluem de cima para baixo;
  • Os trabalhadores do nível mais baixo sabem muito pouco além do necessário para que cumpram suas tarefas (que tendem a ser repetitivas e rotineiras);
  • À medida que se sobe na hierarquia, o conhecimento dos diferentes setores da empresa se amplia, pois as tarefas são cada vez menos repetitivas e rotineiras, são atividades decisórias, que exigem iniciativa e responsabilidade;
  • Em empresas grandes, os diferentes setores muitas vezes rivalizam a fim de conseguir mais investimentos para poder expandir mais e serem mais reconhecidos. Por consequência, pode acontecer de informações importantes serem sonegadas a setores rivais, com a finalidade de enfraquecê-los.

Autogestão:

  • Quando as empresas solidárias são pequenas, as decisões ocorrem em assembléia; se são grandes, existe a eleição de delegados que decidirão as questões prioritárias; já as decisões rotineiras são feitas por uma diretoria eleita;
  • Em empresas solidárias de grandes dimensões, também existe uma organização hierárquica com encarregados e administradores, porém em um sentido inverso ao modo capitalista, uma vez que as informações e consultas fluem de baixo para cima e as ordens e instruções fluem de cima para baixo, uma vez que os níveis mais altos da administração são colocados pelos demais e respondem frente a esses, atuando como meros representantes. A assembléia de todos os seus cooperados é a máxima autoridade e os gestores devem acatar as decisões que dela emanam;
  • A informação sobre os procedimentos e as diferentes etapas de todo processo da empresa são abertas a todos os seus membros e se estimula que haja essa visão do todo; nesse sentido, os trabalhadores sofrem uma espécie de sobrecarga, pois além da produção, devem se inteirar e tomar parte nas decisões; mas este é o preço de ser dono de seu próprio sustento;
  • O fato de todos tomarem parte nas decisões costuma produzir um grau de envolvimento que dispensa a competição como fonte de produtividade.

 Conclusão

Para concluir, é preciso ressaltar que, historicamente, o capitalismo é um fenômeno muito recente, resultado do surgimento da burguesia, a partir do fim da idade Média. Porém, com poucas exceções, os modos de produção que o antecederam também eram sistemas de exploração, em que há dominadores e dominados. Assim que podemos supor que o pensamento humano alinhava-se desde muito tempo a tornar-se capitalista, da mesma forma que hoje podemos dizer que a progressão desse mesmo pensamento está no sentido de enxergar a contradição deste sistema, encontrando alternativas de amenizá-lo para um dia superá-lo definitivamente.

Seria muito limitante dizer que o capitalismo só tem coisas ruins e a economia solidária só tem coisas boas. Mas de qualquer forma é interessante notar que é um sistema que está crescendo, encontrando as suas limitações e evoluindo, assumindo uma posição cada vez mais significativa dentro da sociedade. Em outros artigos vamos explorar outros aspectos da economia solidária, mostrando sua abrangência e pertinência para o mundo em que vivemos hoje.

Deixe um comentário





Navegue pelas seções deste artigo

Selecione os tópicos abaixo

  • Introdução
  • Existe outra alternativa?
  • Como funciona?
  • A autogestão
  • Conclusão

Bem vindo, visitante!

Cadastre-se em nosso site e tenha acesso a:

  • Área restrita com conteúdos exclusivos
  • Novidades no seu e-mail
  • Descontos e promoções em cursos


Mapa do Site

Fale Conosco

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Mensagem