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Capitão Moby Dick

O fenômeno Tiririca

Arquivado em Sociedade | 5.236 visitas |

Eu não resisti à tentação de escrever algo sobre as últimas eleições, apesar do blog em si não ter um caráter social e sim filosófico. De qualquer forma, parece-me que esta é a oportunidade de mostrar o ponto de encontro destas duas ciências tratando deste assunto.

Apenas para contextualizar, o Tiririca como fenômeno político é uma criação do PR, um partido que se formou a partir de uma fusão do PRONA (do Enéias, lembra?) com o PL. Era intenção do Enéias, desde tempos, a criação de um herói popular que levantasse a legenda no Congresso Nacional, pois devido ao intrigante quociente eleitoral, o candidato que atingir o número necessário de votos para se eleger distribui os votos restantes para os demais candidatos da sua legenda, fazendo com que personagens que não tem praticamente nenhuma representatividade possam assumir uma cadeira na Câmara.

Enéias já tinha vislumbrado a fórmula do sucesso, quando nas eleições para presidente em 1989, com apenas 15 ou 17 segundos no horário político destrinchava partes da sua plataforma de campanha de forma tão rápida que mais parecia um locutor de corrida de cavalos e concluia dizendo seu nome. Isso o destacou entre os vários candidatos que tinham o mesmo tempo e, na sequência foi se popularizando até chegar, em 2002, a receber a maior votação para deputado federal da história.

Mas afinal, por que o sr. Francisco Everardo Oliveira Silva (o Tiririca) tornou-se o candidato a deputado federal mais votado nas eleições de 2010? A explicação mais óbvia é o protesto. Em um país que possui políticos profissionais (um conceito estranho, apesar de comum no Brasil – estranho pois um político deveria ser representante de uma categoria e se a pessoa é política por profissão, que categoria ela representa?) chegamos num ponto em que tanto faz quem se eleja, no conceito popular. Como um dos lemas da campanha do Tiririca, que dizia: “pior que está não fica”, chegamos em um nível de total descrença da capacidade de transformação social vinda do legislativo. Quando se escolhe um palhaço como representante político de um povo, isso é pra mostrar o que esse povo pensa de si mesmo e o conformismo e passividade extrema a que chegamos.

Mas tem mais, o Tiririca não é só um palhaço, “ele é uma pessoa comum, como eu”, pensaram os eleitores que votaram nele. Uma pessoa “comum”, que não entende (e parece que nem quer entender) nada de política, nem de educação, nem do papel que tem a desempenhar. Mas que, apesar disso tudo, agora “tirou a sorte grande” e se deu bem.

Parece que existe uma grande identificação do povo com a trajetória de todos esses anônimos que do dia pra noite ganham na mega-sena, no programa do Gugu, ou do Caldeirão do Huck, ou ganham o Big Brother (ou assumem alguma posição para a qual não estão preparados, etc.). A sociedade está externalizando com esse tipo de voto muito mais do que uma crítica ao sistema político, está externalizando uma desesperança completa nas possibilidades de crescimento profissional e pessoal por esforço próprio; como se a única chance de reverter essa vida miserável e sofrida esteja nas mãos de uma virada completa, como em um conto de fadas hollywoodiano.

Mas tem gente que defende esse tipo de ação, dizendo que é “protesto político”. E vai resultar em que esse tipo de protesto?! Protesto político se faz indo às ruas, em marcha; se faz na conscientização do amigo, levando a informação, denunciando, apontando, se recusando a conviver com a corrupção. Chega dessa mediocridade de dizer, como já ouvi várias vezes: “Esse aí rouba, mas faz”. Que conformismo, que passividade, que forma tão grotesca de pensar o futuro!

Não precisamos mudar só a política, precisamos desenvolver uma nova cultura para que então a política possa ter um outro encaminhamento. Democracia não é o direito de votar, simplesmente. Democracia é dar direitos iguais de escolha e isso implica em capacitar as pessoas a tomarem suas decisões, não apenas políticas, mas em um sentido mais amplo, auxiliar cada indivíduo a assumir o controle de sua vida e o resultado de sua existência, baseado nas escolhas e caminhos que toma.

Vivemos todos sob a lei do menor esforço; cultuamos as pessoas pelo lugar onde estão, mas não pela trajetória que tiveram. Enquanto não se desenvolva uma nova forma de pensar, não existirá consciência política, nem social, ambiental, familiar nem nada. Apenas continuaremos sobrevivendo como animais, à espera que apareça uma oportunidade de se dar bem.

Pra concluir: não precisa ser muito esperto pra perceber que essa eleição abriu um precedente. Nas próximas eleições a “palhaçada” estará mais escancarada, pois está provado que o deboche angaria mais votos que qualquer projeto político. E o buraco vai ficando cada vez mais fundo…

Comentários

  1. Parabéns pelo post meu irmão

    abraço

    Elomarioano em 18 de dezembro de 2010 às 7:51 am

  2. O melhor artigo sobre política que eu li sobre as últimas eleições. Você deveria escrever mais sobre o assunto. Parabéns mano!

    Anderson em 5 de janeiro de 2011 às 7:27 pm

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