Voltar para o topo

Pensamento do dia:

Não existe nada absoluto, tudo é relativo. Por isso devemos julgar de acordo com as circunstâncias.

Dalai Lama

Anarquia, gnosticismo e ecologia

Arquivado em Sociedade | 1.691 visitas | Tags: , , ,

Quando se fala em anarquismo, é comum notar em alguns uma reação negativa, principalmente naquelas pessoas mais espiritualizadas. Isso é devido a uma forte campanha que nos fez acreditar que anarquia é sinônimo de completa desordem. Neste artigo vamos analisar esses princípios, mostrando como andaram de mãos dadas com os distintos movimentos gnósticos que ocorreram através do tempo.

Anarquia significa ausência de poder autoritário, imposto por alguém sobre os demais. Porém existem dezenas de correntes anárquicas e muitas delas possuem posicionamentos radicalmente opostos entre si. Por exemplo, muita gente pensa que ser punk é sinônimo de ser anarquista e isso causa certo rechaço nos “amantes das coisas belas e harmônicas”. Porém o movimento punk possui inspiração em alguns ideais de uma corrente específica do anarquismo, somente isso. Em contraparte, existiram grandes personagens na história que se declararam anarquistas, como Mahatma Gandhi e Thoreau, e outros que expressavam ideais essencialmente anarquistas, como Thomas Jefferson, Tolstoi e até mesmo Jesus, Buda e Samael.

O que propõe o anarquismo? O anarquismo é uma ideologia que  se opõe às estruturas hierárquicas verticais, onde existem indivíduos que têm o poder e outros que são subordinados. No lugar das autoridades inquestionáveis, o anarquismo se propõe à liderança por competências, ou seja, a autoridade é distribuída entre todos, segundo a experiência e as inclinações de cada um. Todos são bons em alguma coisa e aquele que sabe mais organiza os demais na sua área de conhecimento, sendo que em outra área ele é conduzido por outra pessoa mais experiente e assim sucessivamente. Por haver essa relação de igualdade, as autoridades surgem naturalmente, sem necessidades de legitimá-las com títulos ou cargos. Em síntese, as autoridades no anarquismo existem, elas apenas não são impostas nem são absolutas ou irrevogáveis.

Nas comunidades gnósticas existentes entre os séculos II a IV esses preceitos eram a base de sua organização litúrgica. Em muitos grupos, não existia uma autoridade eclesiástica, senão que o ofício do dia era celebrado por qualquer membro da congregação (podendo inclusive ser mulher) que naquele dia se sentisse particularmente tocado pela graça divina e então oficiava no intuito de distribuir a graça aos demais.  Da mesma forma, no século XIII, outro grupo gnóstico, conhecido como os cátaros, rejeitavam toda autoridade eclesiástica como mediadora entre os homens e a divindade (o que ameaçava fortemente a autoridade da igreja católica, razão pela qual foram exterminados na cruzada albigense). A simplicidade com que viviam e a disposição com que ajudavam doentes e necessitados fez com que conquistassem muita simpatia por parte de todos da região, pois diferente do clero católico, os cátaros não ostentavam riqueza nem pretendiam diferenciar-se das multidões de camponeses e comerciantes.

No gnosticismo contemporâneo, ensinado pelo mestre Samael Aun Weor, a questão social foi trazida novamente à tona. Segundo ele, o Cristo cumpre três papéis: um espiritual, outro psicológico e um terceiro que é social. Em seus livros “O Cristo Social”, “Transformação Social da Humanidade” e “Plataforma do Socialismo Cristão Latino Americano” ele aborda a questão da falência do capitalismo e do socialismo materialista, propondo uma terceira via, que não fica totalmente definida, mas que se aproxima em alguns aspectos do anarquismo (que é outra vertente do socialismo, divergente em vários pontos do socialismo marxista), pois Samael, assim como Bakunin, refuta a estratégia da “ditadura do proletariado”, por tratar-se apenas de uma troca de poder, sustentando a tirania. Talvez o mestre Samael não conhecesse (ou não quis declarar-se como tal) mas suas ideologias pertencem ao campo do anarquismo cristão.

O anarquismo não é um sistema praticável em um país, mas é perfeitamente adaptado a grupos sociais menores, como instituições e cooperativas, pois propõe uma forma de democracia plena. Mas se analisamos as mais diversas instituições religiosas de hoje (incluindo aqui alguns grupos gnósticos), infelizmente ainda encontramos os que se declaram “teocráticos” (mais uma herança da cultura católica), coisa que racionalmente não se justifica, por tratar-se de um conceito medieval utilizado apenas para legitimar uma aristocracia disfarçada, uma cúpula que usa esse tipo de argumento para revestir-se de poder absoluto (afinal, são representantes da divindade). Aliás, na história da humanidade, todos os governos que se pretenderam teocráticos causaram muita dor ao mundo. Em contraparte, imaginemos como seria uma comunidade com igualdade de oportunidades e incentivo a que cada indivíduo seguisse suas inclinações. A harmonia que surgiria nesse tipo de ambiente criaria a atmosfera propícia para que Deus pudesse se expressar no coletivo e isso sim é que seria uma teocracia legítima, pois Deus é a força que se move em tudo e ao seu tempo se expressa em qualquer coração que esteja desprovido de medos e limitações impostas pelos demais.

Os movimentos gnósticos de todas as épocas sempre foram essencialmente revolucionários e pretenderam criar um ambiente de liberdade e igualdade social, por entender que nossa verdadeira natureza transcende sexo, castas, etnia e qualquer outro elemento que nos diferencie como indivíduos. Em sua essência são sempre movimentos anarquistas, mas que não carregam isso como um fim em si mesmo. Um outro movimento que tem características anarquistas é a ecologia profunda, que compartilha ainda uma série de princípios com o gnosticismo, razão pela qual podemos dizer que juntos formam uma tríade, que pode sintetizar o novo tipo de espiritualidade que deve emergir no mundo, com suas características psicológicas (trabalho interno), sociológicas (integração social) e ambientais (integração com o meio).

Segundo a definição de Fritjof Capra, no livro A Teia da Vida:  “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.”

A ecologia profunda vem a integrar uma visão de equanimidade não apenas entre os seres humanos, mas destes com o meio em que vivem, reconhecendo que se não aprendermos a cooperar com o planeta, cedo ou tarde ele continuará sem a nossa presença, pois ao contrário do que se acreditava antes, nós pertencemos à terra e não o contrário. Se observarmos, existe uma íntima relação entre a destruição ambiental promovida pelo nosso modo de vida capitalista/consumista e sistemas como a ditadura, o racismo, o machismo e o imperialismo, pois todos estes são formas de dominação que tem exploradores e explorados, algozes e vítimas. Por isso a ecologia compartilha princípios de cooperação entre iguais, exatamente como o anarquismo, pois todos pertencemos a uma grande comunidade (homens, animais, plantas…) e cedo ou tarde teremos que adaptar nossas vidas a este fato, para evitarmos a extinção. E o gnosticismo propõe ainda uma visão mais ampla a esta temática, ao ensinar que, no tecido da vida, apenas “estamos” humanos, ou seja, todos somos criaturas espirituais que transitam eternamente pelos reinos da natureza, de organismo em organismo, ora como simples elementais, ora como humanos.

Comentários

  1. É como diz a Marília Fiorilo no Livro O Deus Exilado os gnósticos são: “Anarquistas sem utopia”

    Achei muito interessante seu posicionamento, posso dizer que concordo com a maioria de suas criticas, principalmente a o que se referente a todo tipo de hierarquização religiosa… Penso que essa pode existir quando é somente simbólica (ritualistica) e funcional…
    Gostei muito de sua tríade! Muito boa, e funcional!
    Mais penso que “Anarquismo” não é a melhor palavra para descrever um sistema politico e organizacional em harmonia e sintonia com a vida. Sinto que o “Anarquismo” ainda é muito ligado a um desordem (ou falta de organização), aonde o que reina é o caos e a desequilíbrio. E apesar de o significado da palavra não se referir directamente a isso (anarkhosdo grego ἀναρχος, que significa “sem governantes”) a maioria das pessoas que eu conheço que se dizem “anarquistas” cantam louvores a própria confusão, a desordem e ao próprio caos. Alem dessa comum conotação pejorativa, penso que “Anarquismo” é um conceito politico já muito saturado, que tem já muito conceitos e contra-conceitos…

    Penso, que em vez da palavra “Anarquismo”, a palavra certa seria “Emergência”: trata-se de um sistema (ou processo) descoberto a pouco tempo por cientistas que observavam a maneira que a vida se organiza na natureza, uma formação de padrões complexos a partir de uma multiplicidade de interacções simples. Um conceito de organização perfeita, e em total harmonia com a mãe natureza!

    Elomarioano em 8 de maio de 2011 às 8:37 pm

  2. Olá meu amigo Elomariano!
    Excelente seus comentários!
    Quanto a questão do termo anarquismo, a ideia de caos e desequilíbrio é própria de uma construção negativa criada por uma elite política. Por isso faço questão de usar essa terminologia, para quebrar o padrão estabelecido e fazer justiça a essa ideologia. Se, para designar um sistema de pensamento, decidíssemos criar um termo novo cada vez que alguém corrompe o uso do termo já existente, então teríamos que deixar de usar também a palavra gnosis, que sofreu o mesmo tipo de deturpação, não é verdade?
    Quanto a questão de emergência, ou propriedades emergentes, este é um elo que liga a ecologia profunda a alguns movimentos anarquistas, como o ecoanarquismo. Não é exatamente a mesma coisa, mas faz a ecologia profunda apontar na mesma direção do anarquismo, por isso optei por este termo e não aquele, por ser mais abrangente.
    Um grande abraço e sinta-se a vontade para continuar o diálogo!

    Revolução Interior em 9 de maio de 2011 às 12:53 am

  3. Me lembro de quando eu ainda esta na minha licenciatura, quando meu professor de sociologia queria explicar o sistema económico actual, ele sempre dizia que vivemos em pleno “Anarco-capitalismo”, um Anarquismo-capitalismo-neoliberal…

    Penso que não se trata de usar uma palavra nova, mais sim de se abrir para um novo paradigma. O paradigma da “Emergência”. Pois é uma palavra que nos trás uma ideia de organização “orgânica”, sem governantes e ao mesmo tempo natural.

    Bom mais isso é só um dica e não um critica!

    Parabéns meu amigo, pelo post, pelo blog,e etc…

    Elomarioano em 9 de maio de 2011 às 1:19 pm

  4. É que existem diversas formas de anarquismo e o anarquismo ao qual me refiro pende mais para o anarquismo filosófico, com suas várias correntes… embora os termos sejam importantes para alinharmos conceitos, penso que isso não é o mais importante. Afinal, mesmo usando termos diferentes, estamos alinhados quanto ao propósito…

    um abração pra você!

    Revolução Interior em 9 de maio de 2011 às 1:29 pm

Deixe um comentário





Bem vindo, visitante!

Cadastre-se em nosso site e tenha acesso a:

  • Área restrita com conteúdos exclusivos
  • Novidades no seu e-mail
  • Descontos e promoções em cursos


Mapa do Site

Fale Conosco

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Mensagem