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O mito de Perséfone e os mistérios de Elêusis

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Antes de estudarmos o mito em si, temos que entender o que são mistérios. Existem dois tipos de mistérios:

  • Aquilo que é mantido em segredo ou que se desconhece, mas que um dia pode ser revelado;
  • Aquilo que sempre será um mistério, pois não pode ser explicado com palavras; para entendê-lo é necessário experimentar diretamente.

Nós convivemos com esses dois tipos de mistérios em nosso cotidiano. Cada vez que se ouvimos falar sobre um crime que não se sabe quem cometeu, ou um fato histórico que não se desconhece exatamente o que aconteceu ou como aconteceu, estamos diante do primeiro tipo de mistério. É importante notar que esses fatos são “mistérios” somente porque ainda não se tem informações precisas. Porém, ao se decifrar as pistas, o mistério se desfaz.

Já o segundo tipo de mistério é bem mais profundo, porque envolve a experiência direta. Ele pode estar presente em coisas simples, como por exemplo, não podemos entender o sabor que tem uma laranja se não comermos uma. Ninguém pode nos dar uma explicação que consiga proporcionar o mesmo entendimento que adquirimos ao entrar em contato direto com a coisa.

Esse segundo tipo de mistério também está relacionado a níveis de compreensão, a estados de consciência muito sutis onde a mesma verdade se mostra em novas facetas. Por isso são mistérios incomunicáveis, porque a pessoa que possui essa sabedoria pode tentar explicar, mas quem ouve não vai entender o que se pretende transmitir.

Para proporcionar a aproximação aos mistérios é que surgem as escolas iniciáticas, também chamadas de escolas de mistérios. Nelas, através de cerimônias iniciáticas, o neófito (o aspirante ao conhecimento iniciático) entra em contato com símbolos e ensinamentos que colocam em atividade determinados níveis sutis de consciência, sempre que o iniciador possua tal sabedoria dentro de si. A chave está nas mãos do iniciador e os ritos são mecanismos que proporcionam uma transmissão “mente-a- mente”, ou como se diz no gnosticismo, de consciência para consciência. Caso uma cerimônia fosse realizada por quem não possui a sabedoria relacionada ao que se deve receber, o mistério não se verificaria no neófito, pois seria o mesmo que receber um presente e ao abri-lo se descobre que a caixa está vazia. Por isso, nas escolas de mistérios, os ensinamentos são divididos em câmaras (relacionadas ao nível de consciência do iniciado) e os conhecimentos referentes a cada câmara são sigilosos, para que não se tornem coisas comumente faladas, mas que não são compreendidas com o nível de profundidade adequado, o que dificultaria mais ainda o acesso àquela sabedoria.

Os mistérios de Elêusis estão relacionados a esses mistérios da sexualidade sagrada. Elêusis era uma cidade grega próxima a Atenas e celebrava anualmente um festival em honra a Deméter e Perséfone.

Deméter é a grande mãe da mitologia grega, responsável pela fertilidade da terra e pela agricultura. Teve uma filha com Zeus, chamada Perséfone. Certa ocasião, Hades, deus do mundo dos mortos se apaixonou pela beleza da jovem Perséfone e a raptou, fazendo com que a terra se abrisse e ela fosse tragada, indo parar no Érebo, morada de Hades (o equivalente grego aos infernos cristãos).

Deméter entrou em desespero procurando por todos os cantos a sua filha, sem encontrá-la. Sua tristeza repercutiu sobre toda a terra, na forma de uma grande seca e fome. Nada mais brotava e a humanidade estava à beira da morte, devido à fome.

Sabendo por Hélios (o deus Sol) que Hades havia raptado Perséfone, Deméter foi pedir a Zeus que o obrigasse a devolver sua filha. E assim aconteceu. Porém, quando Hades trouxe Perséfone ao encontro de sua mãe, esta já havia comido a romã (símbolo do submundo, da morada de Hades), ou seja, já havia sido desposada e tinha obrigações agora com o seu esposo, situação que resultou em um acordo: durante 9 meses Perséfone ficaria ao lado de sua mãe e por três meses voltaria ao Érebo, para companhia de seu marido. Surgia assim o inverno, estação em que a terra perde sua força vital, pela tristeza de Deméter ao estar longe de sua filha.

O mito de Deméter e Perséfone simboliza o drama da vida. Perséfone representa a semente, que é tragada pela terra (que ao mesmo tempo é a mãe que fertiliza, mas também é a tumba para semente, pois a mata, antes que o broto surja de dentro dela). A vida surgindo de dentro da terra depois do plantio era a forma como os gregos comemoravam o drama da morte e ressurreição, vivido séculos mais tarde por Jesus de Nazaré.

A semente quando depositada na terra fecunda faz a vida surgir e de uma só semente podem brotar tantas outras para cultivar um campo inteiro. Esse mistério da multiplicação da vida e do sacrifício da semente, que se entrega à morte por amor, sem no entanto recusar seu trabalho de dar continuidade ao trabalho de sua mãe; e essa renovação que acontece após o inverno, com o solstício de inverno, em que força vital vai lentamente ascendendo até culminar na colheita, expressão máxima da alegria da mãe terra; isso era o significado externo dos mistérios de Elêusis

No aspecto iniciático, celebrava-se o culto à sexualidade, pois através do cultivo da semente os aspectos divinos da alma também se multiplicavam. E tal como na agricultura, a sexualidade obedece a ciclos de expansão e recolhimento. Infelizmente é muito pouco o que historicamente se sabe sobre seus rituais.

Esses mistérios, no entanto, que já eram a transmigração dos cultos egípcios celebrados à deusa Ísis, continuaram existindo em outras sociedades iniciáticas, quando o cristianismo passou a dominar todo mundo europeu, impondo à sexualidade o caráter pecaminoso que ainda sobrevive em nossa cultura.

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