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Pensamento do dia:

Se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.

Che Guevara

A caixa de Pandora

Arquivado em Mitologia | 11.845 visitas | Tags: , , , , , ,

A mitologia grega nos traz uma versão similar à bíblica no que se refere à origem do sofrimento, através do mito de Pandora. Mas antes de entender esse mito, vale a pena começar a narrativa com a história de Prometeu e seu irmão Epimeteu.

Na mitologia grega, Prometeu e Epimeteu são dois titãs, que pertencem ao grupo dos antigos deuses, ou seja, os que governavam antes dos deuses olímpicos. Conta a lenda que as criaturas foram feitas da terra, do limo e do fogo e depois de prontas, foi dada a tarefa a estes dois irmãos de distribuir os atributos às espécies. Epimeteu atribuiu então a cada animal uma série de habilidades: a uns dava força, a outros agilidade, a outros asas, chifres, veneno, etc. Quando chegou na última criatura, o homem, já havia distribuído todos os dons entre os outros animais. Recorreu então a seu irmão, Prometeu, que decide roubar o fogo dos deuses e doá-lo à humanidade. Em represália, Zeus manda acorrentar Prometeu em uma rocha e uma águia (ou abutre) vem todos os dias para devorar o seu fígado. À noite, como Prometeu é imortal, o fígado se regenera e no dia seguinte novamente o seu fígado é devorado. Prometeu permanece nesse sofrimento até o dia em Héracles (ou Hércules) o liberta.

Os deuses decidem castigar também a humanidade por ter se apropriado do fogo sagrado. Para tanto, criam Pandora, a primeira mulher e cada deus deposita um de seus atributos nela e a enviam a Epimeteu, que a toma como esposa, apesar das advertências do irmão para não aceitar presentes dos deuses. Junto com Pandora, enviam uma caixa fechada, que dizem a ela que não deve abrir. Mas uma bela noite, tomada pela curiosidade, Pandora decide abrir a caixa e de dentro dela saem todos os males do mundo, como a fome, a doença, a guerra e o sofrimento. E depois de sair todos os males, sai de dentro da caixa uma pequena estrela que representa a esperança.

O nome “Prometeu” significa “aquele que prevê” ou “que pensa antes de fazer” e Epimeteu “aquele que pensa depois”, ou seja, Prometeu é o símbolo daquele que é precavido, prudente e ponderado, enquanto que Epimeteu é o seu oposto, ou seja, é a espontaneidade, a imprudência e a impetuosidade. Ambos representam a natureza humana, em seu antagonismo intelecto x instinto, razão x impulso.

Tal como o Criador faz a criação à sua imagem, Epimeteu dá os atributos aos animais, que são justamente a expressão instintiva da natureza, enquanto que Prometeu dota os homens com a capacidade do raciocínio, da abstração e da metodologia. Mas ele ainda dá algo mais aos homens, que é algo que ele, por si só, não possui: o fogo sagrado. O fogo sagrado é o que diferencia o ser animal do ser espiritual e ao receber esse presente, o homem passa a desfrutar da possibilidade de ser como os deuses.

No Gênesis bíblico, o fogo sagrado corresponde à árvore do conhecimento do bem e do mal, de onde provém a sabedoria e que tem suas raízes compartilhadas com a árvore da vida. No Gênesis, o homem é expulso por ter comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois “se tornou como um de nós” (Deus, ou melhor, os Elohim) e caso comesse da árvore da vida, se tornaria ainda imortal. No mito grego, o fogo sagrado é o que separa os deuses dos homens e ao recebê-lo, podem realizar prodígios que antes só poderiam ser feitos pelos deuses. No mito judaico, ao comer do fruto proibido o casal é expulso do paraíso e lançado ao mundo. No mito grego, ao receber o fogo sagrado são castigados com o recebimento dos males do mundo, o que em síntese é a mesma coisa.

Também existe uma grande semelhança entre Pandora e Eva. Ambas são a primeira mulher e ambas são vítimas de uma armadilha. A primeira armadilha é a história de que “de tudo você pode comer, menos daquilo lá”. Dizer isso para uma criança (inocente), por exemplo, já é o suficiente para aguçar a sua curiosidade. Mas colocar ainda alguém lá, instigando, dizendo “você não tem curiosidade de saber por que será que não pode comer…?”, convenhamos, é uma situação impossível de se vencer. O mesmo acontece com Pandora. Os deuses dizem pra ela: “Leva a caixa, mas não abre!” Isso nos faz inferir que a queda era parte do drama da existência, condição sem a qual não se poderia chegar algum dia à verdadeira sabedoria. Para subir, é necessário primeiro baixar, diz o postulado hermético.

Os gnósticos do século II, considerados como grandes hereges por parte da igreja, faziam uma interpretação muito distinta da que hoje fazemos do Gênesis. Eles diziam que a serpente, na verdade, é o próprio Demiurgo, o Deus do Velho Testamento (assim como a árvore, a maçã e ainda o querubim que ficou na porta, com a espada flamígera). O mais curioso é que em nenhum momento a serpente mentiu pra Eva, pois Deus supostamente não queria que se comesse da maçã porque quando eles comessem, enxergariam como Deus (fato que depois é confirmado no mesmo texto).

Ambos os textos ainda deixam uma ponta de esperança à humanidade. O querubim bíblico não barra a porta eternamente, mas apenas protege a árvore da vida para que a impureza humana não a alcance. Igualmente, ao libertar os males do mundo, Pandora fez surgir na natureza humana a esperança, que é a fonte do ânimo para lutar e triunfar sobre todos os males. Isso nos faz entender que no momento em que somos lançados ao sofrimento é que inicia o trabalho de purificação e ascensão.

Prometeu e Epimeteu simbolizam a natureza humana, de origem divina, porém confinada à experiência mundana, uma vez que não vivem no Olimpo. Essa natureza  é dual: ela pode ser racional e sensata (Prometeu), porém também pode ser inconsequente (Epimeteu). Pela natureza sensata nos foi dado o direito de desfrutar do fogo sagrado. O fogo é símbolo do instinto procriador, sexual. Mas o fogo sagrado é mais do que isso. Ele é roubado dos Céus para ser entregue aos homens, seres que podem fazer um uso racional dele. Ainda assim, é fogo, mas é divino. Representa esse mesmo impulso sexual voltado para a sublimação da natureza humana em algo superior, divino. Novamente comparando ao Gênesis, o homem foi feito à imagem e semelhança do Criador, o que significa que a ele foi dado o poder de criar e esse poder reside nas gônadas sexuais. Mas a criação não se restringe a criar uma nova vida apenas, pois foi dito “crescei e multiplicai-vos”. “Crescer” refere-se a aprender a manejar sabiamente o fogo sagrado, em prol do autoaperfeiçoamento.

Prometeu, ao tomar o fogo sagrado para a espécie humana (que na verdade é ele próprio a essência dessa natureza, junto com Epimeteu), é castigado pelos deuses, assim como Adão, que é expulso do Éden e a partir de então deve lavrar a terra com o suor de seu trabalho. Prometeu é acorrentado à dura rocha e a ave de rapina vem devorar seu fígado todos os dias e à noite, o fígado se regenera. Prometeu, simbolizando o aspecto mais racional e sensato da essência humana, é acorrentado à rocha (a matéria, o corpo carnal, com seus desejos e paixões) e o abutre dos desejos vem devorar o seu fígado (que os gregos – assim como os chineses – acreditavam ser a morada dos desejos). Em outras palavras, o sacrifício de Prometeu é submeter-se às paixões humanas, consequência natural da tomada do fogo sagrado, pois mesmo sendo sagrado, ele arde e queima. À noite, ou seja, no momento em que há o repouso da atividade humana, o fígado se recompõe dos ataques passionais, para novamente ser atacado no dia seguinte. Ele só será liberto no dia em que encontrar-se com o messias grego (Héracles) e novamente encontramos um paralelo bíblico, pois o Cristo veio para redimir os pecados de Adão.

Epimeteu, em contrapartida, não sofre com o “crime” de Prometeu, pelo contrário, ele desfruta das núpcias com sua amada, dada pelos deuses. Epimeteu bem poderia ser comparado ao louco do Tarô, ou ao Dioniso grego. Prometeu sofre porque sua sensatez é limitada pela condição humana. Epimeteu se deleita com essa natureza. Um último paralelo, também profundamente significativo, poderia ser traçado entre Prometeu e Lúcifer, o anjo caído, pois foi condenado pela ousadia de querer tornar-se “como deus”… mas não seria exatamente essa a proposta da jornada humana?

 

Comentários

  1. Caro amigos muitos bom texto mas devo confessa-lo que lá no fundo algo me incomoda como que uma
    Inquietude que não quer se calar exatamente porque conhece os mistérios do fogo e suas polaridades e eventualmente seus tributos que encerra a fonte de toda vida.

    lá nas entrelinhas da própria narrativa dos mitos cima explicado deixa uma breve questão a ser analisada com a supra visualidades da consciência investigativa.

    para os leigos que só se prende as questões literária histórica não se da conta que há algo a mais dentro destes mistérios de prometeu e caixa de pandora.

    como o no me já diz a expressão o”mitos”por tal motivo muitos não se prende a as questões ocultas que se esconde nesta narrativas magnifica que e impregnada de mistérios

    um destes mistérios e os poderes do “fogo luciférico”a luz das luzes o cristo. na grande verdade não existe nada entre a terra e nem o céus que não possa ser desvelado pela a consciência transcendental.

    o que houve nesta narrativa e a narrativa do próprio Gênesis e um peplo clássico de que o homem não esta pronto para conceber as forças da criação em suas formas sem uma previa amadurecimento.

    a luz em seu princípio mas fecundo não tem polaridade ela e de origem uni total sincronizada em seu próprio eixo a luz em sua fonte primaria e de ação livre das relações contrarias da dualidade de polos.

    ou seja nossa monada ou essência humana e uma partícula desta luz sua raiz primaria e seu ser que este mesmo tem suas particularidades subdivididos em diverso mundos e planos.
    a luz das luzes parte desta luz primaria e neste momento se cria a polaridade da luz no vácuo da existencialista polaridade e
    sincronizadas de acordo com as coordenadas do próprio movimentos do ser.

    ou seja a trindade com três princípio que parte de uma única fonte tem três forma diferente de expressão da mesma luz, resumindo a luz original não se altera mesmo estando em movimento por intermédios de três principio dentro do mundo dativo.

    se derrpente nossa capacidade visual e de discernimento venha a querer ver a luz primaria seria impossível porque somente as
    expressões da trindade e capaz de vislumbrar os mistério da luz imutável

    nossa monada só e capaz de receber as milhares de expressões e variações da luzes que parte de milhões de raio mundo a fora desta forma não há como se definir algo no meio de milhões de raios um milhos de expressões.quando o homem encarna os três principio pai filho espirito santo ele começa a compreender os mistérios da luz das luzes devido ele vislumbra os mistérios da luz.

    e este mistérios viaja do princípio ao fim, neste polos esta todos os mundos e realidades da matéria físico ou não física e a luz a luz se altera suas formas dependendo em que polo se encontra-se

    resumindo tudo isto a luz a ser dividia de sua fonte original vija em toda criação e o ser humano não e capaz de conhecer todas as suas características e formas que ela ganha nesta viaje.

    este e o motivo que a humanidade não e capaz de compreender os trabalhos de lúcifer nos processos indiáticos muitos dogmas e crenças humana se resumi em nada quando compreendemos que a verdade e algo móvel e não algo inerte.

    se não formos capaz de viajar em todas direções que traças os milhares de raiz da luz ficamos presos em algum lugar com uma crença qualquer e co um determinado grau de consciência

    quando se diz que luz sai das trevas esta frase esta literalmente correta.

    a luz se intensifica nas trevas por isto o iniciado deve descer ao mundo do abismos para resgatar os mistérios que ali se guarda em forma latente.

    imagine que exista dois grandes espelhos em cada canto da criação e que um representa o bem e o outro representa o mal,
    e nos somos o poto receptor da luz emitidas pelos os dois espelho. todos tributos da essência física recebe a luz do bem e todos
    os instintos da matéria cristalizada em energia negra que o próprio ego recebe a luz dos mal.

    no fim o iniciado deve trabalhas estas duas realidades a ponto da duas se tornar harmônica e criar um só movimento primário copiando os movimento da luz imutável

    este e o ser do ser a luz imutável.

    nousvate em 28 de março de 2011 às 7:42 pm

  2. Texto fantástico!!!

    Claro, objectivo, profundo…

    Parabéns!!

    Elomarioano em 4 de abril de 2011 às 1:18 pm

  3. O bem está em todos os lugares, basta querer enxergá-lo.

    Iagora em 17 de dezembro de 2014 às 11:40 pm

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