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Pensamento do dia:

Há um modo de fugir que se assemelha a procurar.

Victor Hugo

Crise e renovação

Arquivado em Artigos, Filosofia | 4.869 visitas | Tags: , , , , ,

A natureza é feita de um número finito de moldes, mas que se repetem infinitamente. Dentro desses moldes, existem meta-modelos, que são os modelos que formam modelos, ou seja, estruturas auto-conscientes que são princípios ou moldes universais e praticamente regulam como tudo vai funcionar, ou as “regras do jogo”.

Existe uma força arquetípica que desempenha na criação o papel de inteligência coletiva, presente em todos os seres; essa força faz com que os modelos anteriormente citados sejam assumidos pelas criaturas, desempenhando cada um o seu papel em prol da totalidade, pois da atuação deles depende o equilíbrio de tudo. Essa força da natureza (que a partir de agora vamos começar a definir de forma mais específica como o Demiurgo, ou um aspecto da Divindade Suprema), em si mesma, é um meta-modelo de algo maior e segue replicando-se infinitamente em escalas menores, até chegar a níveis sub-atômicos. Esta força é conhecida nas diferentes religiões como Espírito Santo, Binah, Shiva e outros tantos nomes, dos quais alguns nem me atrevo a pronunciar, para não causar confusão nem espanto.

Shiva é a força da natureza que põe toda criação em movimento

No hinduísmo, Shiva é a personificação da força renovadora do universo. Em uma de suas imagens, percebe-se a divindade dançando e de sua dança (movimento) todas as coisas do universo são criadas. Ele é o Criador por excelência, pois possui em si mesmo o ímpeto, a vontade, a energia motriz da ação, que incita ao movimento. Seu “irmão gêmeo” no hinduísmo é Vishnu, o Conservador, aquele que dá sentido e continuidade às criações de Shiva. Um espalha a semente, o outro a faz brotar.

Shiva, porém, não tem apenas o caráter de iniciar, ele também o renova, destruindo os velhos padrões e incitando o surgimento de modelos renovados, melhor adaptados que os anteriores. Na natureza, por exemplo, as criaturas mais adaptadas são as que criam condições mais eficientes de sobreviver e com isso renovam sua própria estrutura genética, garantindo uma prole melhor adaptada à sobrevivência (da observação desse princípio básico Darwin elaborou a teoria da evolução das espécies). Já as criaturas mais fracas ou menos preparadas, são eliminadas através dos diversos mecanismos estabelecidos para garantir a renovação e com ela, o aperfeiçoamento. As doenças, os predadores e as mudanças climáticas são alguns desses mecanismos de renovação de Shiva.

Dentro da natureza, todas as coisas são agentes de um complexo processo de auto-regulação, visando atingir um estágio de equilíbrio, que não tem nada a ver com aquele conceito utópico de algo perfeito em sua estabilidade. O equilíbrio, falando de forma real e prática, é um processo tão instável que só se torna equilibrado devido à dinâmica intensa de sua movimentação, pois qualquer coisa, ao entrar em movimento, produz desequilíbrio, que se harmoniza com o seu movimento seguinte, complementar. Cada etapa desse processo, se tomado de forma isolada, seria encarado como algo de absoluta disparidade ou desequilíbrio. Analisando em fatos cotidianos, uma pessoa não consegue ficar parada em cima de uma bicicleta, pois somente no movimento das pedaladas é que isso se torna possível e se tomássemos uma foto durante o processo, diríamos que o ciclista está totalmente desequilibrado quando joga o peso de seu corpo na perna que movimenta o pedal. Equilíbrio, portanto, pressupõe um ciclo de ação e resposta que quando não tem sequência, produz a estagnação e a morte, que é uma outra forma de renovação.

Dentro da esfera social existem esses mesmos mecanismos de auto-regulação e de renovação. Na natureza, as criaturas são desafiadas continuamente a superarem condições adversas, seja fugir dos predadores ou enfrentar a escassez de alimento. Na sociedade, somos confrontados continuamente com novos paradigmas que colocam em xeque nossas velhas crenças e impulsionam nossa visão de mundo a se expandir ou a perder a adaptabilidade e começar a definhar. Cada época traz em si os seus desafios e as soluções que serviram para um período histórico dificilmente servirão pra um outro momento. Das crises surgem então novos modelos, que colocam em equilíbrio (por um tempo) aquele aspecto da sociedade, e assim tem caminhado a humanidade até os dias atuais.

Vivemos um momento em que a crise atingiu simultaneamente vários aspectos da nossa cultura. Existe crise praticamente em todos os modelos vigentes, seja ambiental, financeiro, político, educacional, religioso, etc. Muita gente afirma que o mundo está perdido, mas esta é uma visão muito superficial do momento histórico que estamos vivendo.

Nos períodos de crise dos sistemas encontramos dois modelos de atuação, bem definidos. De um lado temos o modelo conservador, que tenta “restaurar a ordem”, submersos na ilusão de que isso já existiu de uma forma contínua em algum outro período ou lugar. Os conservadores adotam estratégias que em outros contextos foram bem-sucedidas e acreditam fielmente que a rigidez de sua estratégia é que permitirá o sucesso.

Em um outro posicionamento, encontramos os renovadores, que tentam fazer uma leitura sistêmica do problema, a fim de poder definir os pontos deficientes no processo e então criar estratégias para a transformação, que nunca se completa, por isso necessitará sempre de novos ajustes. Os renovadores dificilmente encontram o apoio da sociedade, uma vez que seus métodos e sua visão quase nunca apontam na direção dos trilhos já construídos na história da humanidade.

Todos os homens e mulheres que figuram nos livros de história como grandes personagens, tão bem quistos pelos conversadores, foram renovadores. Geralmente à frente de seu tempo, levantaram suas vozes para proclamar a morte dos velhos sistemas, e muitas vezes foram mortos antes mesmo de verem suas idéias se disseminando nas multidões. O espírito renovador é uma força depositada pelo Espírito Universal de Vida, (Shiva, ou Espírito Santo) para que exista o melhoramento da espécie humana. Todos o tem em forma latente, mas pela força dos rígidos sistemas a que somos submetidos desda a infância, na formação de nossa personalidade, acabamos dispersando esse chamado, conduzindo nossas vidas apenas na concretização de feitos absolutamente comuns, abaixo de nossas capacidades.

Quando um renovador levanta sua bandeira, cria um desequilíbrio da falsa ordem vigente, que nada mais é do que um passo além na história da humanidade, que se equilibrará no instante seguinte, ao atingir seus efeitos na cultura daquele povo, mudando sua forma de viver e de pensar. Porém, na sequência, surgem os conservadores, preocupados em estabilizar esse grito de liberdade lançado, e resolvem enquadrá-lo em um sistema previsível e mensurável, através de códigos, regras, normas, manuais e tudo que castre a espontaneidade e simplicidade do chamado original. Assim, os princípios vão cedendo lugar às formas robotizadas dos que se auto-declaram seguidores de um movimento renovador, mas que dilaceram e desfazem o sentido primordial daquela mensagem. Defensores de uma “renovação” que deve ocorrer apenas nos limites que eles mesmos proclamaram, sob pena de receber o rótulo de divergência ou adulteração do sentido orignal.

Como dizíamos antes, estamos vivendo um período de grande expectativa, porque a renovação se faz necessária. Em todos os lugares se levantam vozes, ainda isoladas, mas que já começam a fazer um eco maior. Elas não vem de nenhum grupo específico, porque a grande probabilidade é que tal renovação deva surgir rompendo com esses paradigmas institucionais vigentes. É chegado o momento de percebermos que cada ser humano tem muito mais a oferecer do que simplesmente levantar uma bandeira e proclamá-la para si e para os outros como a verdade absoluta, infalível. Derrubar fronteiras, de pátria, de ideologia, de crenças, é o que se exige no momento para continuarmos aprendendo uns com os outros e, principalmente, com a natureza, que sabe fazer isso de forma tão magnífica.

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