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Victor Hugo

Educação, ensino e aprendizagem

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Neste artigo vamos fazer uma breve análise sobre o que é a educação e suas finalidades, buscando evidenciar alguns métodos e ferramentas que o educador pode usar para atingir seus objetivos.

Quando nos referimos ao educador, neste texto, não estamos apontando exclusivamente ao professor, mas sim todo indivíduo que em determinada circunstância assume esse papel de instruir, auxiliar ou orientar às demais pessoas. Comumente isso acontece em nossas atribuições como pais, profissionais, consultores, colegas de trabalho, amigos e até como pedestres que ajudam alguém a chegar ao seu destino.

Educar é uma ação que sempre possui intencionalidade. Quando um pai instrui ao seu filho, já estabelece um objetivo que almeja alcançar com aquelas palavras. Da mesma forma, quando um governo estipula diretrizes educacionais, o faz visando um resultado específico, geralmente voltado a atender as demandas do mercado ou ainda a difundir determinados valores culturais, como aconteceu durante o período da ditadura, em que o ensino de história e “moral e cívica” tinham por objetivo formar uma memória nacional e desenvolver apego à pátria, diferente das necessidades atuais, em que se busca apreender a pluralidade da memória humana (Morin, 2001).

Todas as intencionalidades que movimentam a ação educativa podem ser divididas em dois grupos: as que se propõem a perpetuar a cultura vigente e as que se propõem a superá-la. No primeiro grupo encontramos a educação como forma de adaptação ao meio, ou seja, o que comumente é feito com os mais jovens no sentido de integrá-los dentro dos moldes socialmente aceitos, para que possam “jogar dentro das regras”. Nesse processo, o aprendiz é treinado a aceitar os valores tradicionais do ambiente onde vive, com a finalidade de pertencer àquele grupo social.

No segundo grupo vamos encontrar a educação que é voltada à superação dos paradigmas vigentes. Esta didática pedagógica difere da primeira porque não está centralizada na transmissão dos saberes em si, mas no desenvolvimento de determinadas habilidades que o aprendiz usará para entender e aprimorar o conhecimento que ele próprio produz ao interagir com esses saberes. A esse segundo grupo chamaremos de educação crítico-reflexiva.

As duas formas de educação são importantes e existem momentos de atuar como uma ou outra. Porém a educação adaptativa pode ter um efeito nocivo quando usada nos momentos adequados à educação reflexiva, especialmente em situações que requeiram desenvolver um olhar social mais amplo sobre a diversidade. Além disso, quando existe muita ênfase na adaptação ao meio, os indivíduos tendem a tornar-se meros reprodutores de uma cultura que assumem para si mesmos como parte de sua identidade. Surgem então inúmeras posturas que são comuns no mundo em que vivemos:

  • Pessoas que se vestem, falam e têm a mesma opinião dos demais membros do seu grupo social (é interessante notar que as “tribos” possuem vocabulário próprio, hábitos e opiniões de senso comum, pela imposição moral praticada em seu meio);
  • Pessoas que rechaçam toda cultura diversa da sua, porque foram condicionadas a desejar uma sociedade homogênea – essa é a origem de muitos conflitos entre classes, etnias, credos, etc.;
  • Pessoas que assumem uma “personalidade profissional” por uma identificação exagerada com o papel que desempenham dentro da sociedade – principalmente quando esse papel confere um status e uma aparente diferenciação dentro daquele meio.

A educação reflexiva tem uma ênfase distinta, pois não privilegia uma cultura dominante – que determina o que devemos pensar – senão que faz uma análise sobre os vários olhares possíveis de uma mesma questão, com o propósito de provocar no indivíduo a necessidade de ir além do senso comum, estimulando a autonomia no processo de construção de seu próprio conhecimento.

Talvez seja apropriado fazer a diferenciação entre informação e conhecimento, apenas como forma de realçar a importância do modelo crítico-reflexivo, expondo ainda a fragilidade do modelo tradicional, que é essencialmente adaptativo. O professor transmite informação, assim como a televisão, a internet e o jornal. Informação é o que chega aos sentidos das pessoas. Conhecimento é o resultado do embate interno entre a informação e os conhecimentos previamente acumulados da experiência vivida. Ou seja, enquanto a informação vem de fora, o conhecimento é o que surge a partir do momento que a pessoa conecta esse conteúdo com os elementos pertencentes à sua própria percepção e então nasce o entendimento em um nível inicial, que deve seguir agregando-se a outros conhecimentos e assim ir amadurecendo, aperfeiçoando-se. Em outras palavras, ninguém fica com a informação em si. Todos a transformamos, interpretamos, adaptamos e o que sobra é sempre uma “versão” da informação. Por isso é tão importante centralizar os esforços em dar subsídios aos alunos para que esse filtro seja o mais amplo possível, ao invés de tentar “simplificar” o processo, concentrando esforços em dar a informação pronta, acabada, pois neste caso, como ela não requer análise de juízo, tende a evadir-se da memória do estudante, já que este não se apropriou daquela informação e por isso não lhe deu significado nem valor.

Para que ocorra tal processo, existem muitos recursos que o educador pode dispor. Utilizar-se dos erros cometidos pelos próprios alunos pode ser uma das estratégias de maior efeito. Segundo Perraudeau (2009), em uma educação mais tradicional o erro é visto de forma negativa, como sinônimo de fracasso e costuma remeter o aluno a um processo de culpabilidade que trás consigo penitência e arrependimento. Em uma abordagem mais construtivista, o erro é reconhecido como “o percurso autêntico do pensamento em evolução” (apud Inhelder, Sinclair e Bovet, 1974).

No entanto, não se trata de permitir o aluno errar a esmo. O erro é provocado e conduzido pelo educador, através de perguntas que geralmente o estudante não faria por si só e cuja busca por respostas inevitavelmente suscitará o conflito interior e a incerteza, os quais proporcionarão o encontro com seus próprios paradigmas. O educador faz a mediação entre o aluno e a informação, seguindo o processo de análise que estes vão percorrendo e reformulando as perguntas, refinando-as até chegarem juntos na descoberta, que é celebrada pelo estudante como uma realização sua e, portanto, dotada de um valor que a mera informação dificilmente receberia. Este processo é ao mesmo tempo desafiador e estimulante, além de capacitar o indivíduo a enfrentar os problemas que a vida lhe apresenta no dia-a-dia e que exigem deste a identificação e superação de dilemas, muitas vezes internos.

Tal sistema de aprendizagem não é novo, muito pelo contrário. Ele forma a base do método socrático e deu notoriedade a este filósofo como um divisor de águas no pensamento ocidental. Segundo Haydt (2006):

Para Sócrates o saber não é algo que alguém (o mestre) transmite à pessoa que aprende (o discípulo). O saber, o conhecimento, é uma descoberta que a própria pessoa realiza. Conhecer é um ato que se dá no interior do indivíduo. A função do mestre, segundo Sócrates, é apenas ajudar o discípulo a descobrir, por si mesmo, a verdade.

O método socrático foi denominado de ironia e tem dois momentos: a refutação e a maiêutica.

Na refutação, Sócrates levantava objeções às opiniões que o discípulo tinha sobre algum assunto e que julgava ser verdade. De objeção em objeção, o aluno ia tentando responder às dúvidas levantadas por Sócrates até que, se contradizendo cada vez mais, admitia sua ignorância e se dizia incapaz de definir o que até há pouco julgava conhecer tão bem. Essa etapa do método tinha como objetivo libertar o espírito das opiniões, pois segundo Sócrates a consciência da própria ignorância é o primeiro passo para se encaminhar na busca da verdade.

Tendo o discípulo tomado consciência de que nada sabia, Sócrates passa então para a segundo parte de seu método. que ele mesmo denominou maiêutica.

Partindo do conhecido para o desconhecido, do fácil para o difícil, Sócrates vai fazendo a seu discípulo uma série de perguntas que o leva a refletir, a descobrir e a formular as próprias respostas.

Diante disso, podemos concluir que educar não é uma tarefa fácil, pois envolve mais do que o domínio do saber científico. Envolve conhecer as estruturas epistemológicas que moldam a percepção e a descoberta, com todos os seus desvios, atalhos e outras tantas situações que não podem ser menosprezadas, mas utilizadas como ferramentas para ajustar o percurso que o estudante deve tomar na apropriação do conhecimento. É uma tarefa árdua que exige dos profissionais da educação contínuo aperfeiçoamento quanto a recursos didáticos apropriados para atingir essa finalidade tão magnífica, que é formar cidadãos críticos, capazes de interferir conscientemente na construção de uma nova sociedade.

 

Referências Bibliográficas:

HAYDT, Regina Célia Cazaux. Curso de Didática Geral. 8ª Ed. São Paulo: Ática, 2006.

MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. 3ª Ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

PERRAUDEAU, Michel. Estratégias de Aprendizagem: como acompanhar os alunos na aquisição dos saberes. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Comentários

  1. “jogar dentro das regras”.

    A educação reflexiva tem uma ênfase distinta, pois não privilegia uma cultura dominante – que determina o que devemos pensar – senão que faz uma análise sobre os vários olhares possíveis de uma mesma questão, com o propósito de provocar no indivíduo a necessidade de ir além do senso comum, estimulando a autonomia no processo de construção de seu próprio conhecimento.

    nousvate em 17 de agosto de 2011 às 8:55 am

  2. Todo ser humano e totalmente adaptável ao meio que vive e como tal e adaptável também a cultura que se implante em seu modo de vida.
    O conhecimento que formaliza uma conduta trás as referencias básica de valores que determina as limitações e as capacitações humanas.
    Todo ser que não e capaz de compreender o que esta alem de suas limitações tende a prevalecer em um modo adaptável mais favorável ao seu entendimento no propósito de preserva a sua estrutura formal já estabelecida pela aceitação comum Descartando as varias linha ilimitada do próprio conhecimento.
    Nousvate.

    nousvate em 17 de agosto de 2011 às 9:06 am

  3. educaçao_tem haver com o comportamento do individo
    ensino-transminsão de conhecimentos
    aprendizagem-desenvolvimento das capacidades

    Marcelino Benjamim em 7 de abril de 2014 às 10:49 am

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